À hora de querer partilhar em poucas palavras, algo da nossa missão, não tínhamos dúvida de que aquilo que nos tem impactado mais ao longo destes dois últimos anos, é a realidade dos adolescentes que frequentam a alfabetização no nosso Centro.

O seu rosto fechado, olhar esquivo, muitas vezes distante, duro e aparentemente desinteressado de tudo que se passa na sala de aula, dizia-nos que tínhamos de encontrar um caminho ou caminhos para chegar a “tocar” as suas vidas.

Numa primeira aproximação, uma irmã da comunidade começou por ir de turma em turma, dando uma formação diária em valores…Avaliamo-lo como positivo, muitos aderiam ao diálogo e foi de facto um abrir de caminhos. Mas sentíamos que era necessário um passo mais para uma aproximação personalizada.

Foi aqui que entrou o pôr em marcha o tal Gabinete de Escuta que desde há dois anos tentávamos concretizar. Duas irmãs, das três que formamos a comunidade, passariam a dedicar um dia por semana à ESCUTA, com um tempo e um espaço que favorecesse uma escuta empática, não pressionada por uma resposta rápida ou pontual.

Foram identificadas as/os adolescentes com situações mais problemáticas. O grupo era bastante elevado (cerca de 25 adolescentes) para podermos acompanhar. Depressa nos demos conta de que um encontro não era suficiente para que jovens marcados com problemáticas tão difíceis se abrissem e se deixassem “tocar”…

Mas temos que confiar-vos que a experiência de escutar a estes jovens superou todas as nossas expectativas. Não porque seja fácil, muito pelo contrário, nem porque estejamos a ver já alguns resultados, mas porque nos fez tomar consciência, duma realidade tão dura: jovens de 12 a 18-19 anos tão “batidos” pelo sofrimento e injustiça!

Quando se fala na crise das famílias, falamos, quase de ânimo leve e como que temos de a aceitar passivamente como “normalidade”, mas o que se constata nestes jovenzinhos, é que a desestruturação das suas famílias produziram neles traumas tão profundos que, oxalá consigamos atenuar ou ajudar a integrar na sua personalidade tão ferida…

Quando os escutas, muitas vezes no meio de coisas aparentemente sem importância, surge o “grito” escondido: “o que eu mais queria era ter um lugar fixo onde viver…era ter uma família…”. São diferentes as suas histórias de vida, mas este é o sentimento mais comum a todos e a todas…A diferença é que uns o expressam com raiva e outros/outras, o dizem com lágrimas nos olhos ou mesmo soluçando desesperadamente…

A situação de muitos deles, é que vieram das Províncias para casa de um “tio” ou “tia” que não é da sua família, numa grande parte dos casos, com a promessa de estudar. Chegados aqui, chegam a inscrevê-los na alfabetização, mas obrigam-nos a tanto trabalho em casa, que faz com que em muitos dias tenham de faltar às aulas ou cheguem atrasados, com sono porque a fome aperta…Em casa não estudam porque não lhes dão oportunidade…

As suas histórias de vida fazem estremecer aos menos impressionáveis…A título de exemplo, é a situação da jovem “Ntamu”(nome fictício que significa, força, coragem), que veio do Norte do País viajando sozinha até Maputo para fugir do abuso do seu pai, que logo que a sua mãe faleceu a quis, a toda a força, fazer sua esposa…E como se a pouca sorte a perseguisse, na casa da “tia” que a acolheu (não é sua família), o companheiro desta tenta fazer o mesmo com a menina…Há dois anos que vive nesta luta por se defender…É hoje uma jovem de 17 anos, que não tem sequer um documento de identificação, frequenta a escola pela primeira vez, porque o seu pai me dizia: “ tu nasceste para a machamba…a escola não é para ti ”…

Vendo-se acurralada por todos os lados, quer regressar à sua terra, mas como nada ganha na casa onde trabalha (para comprar a sua roupinha interior trança os cabelos às colegas…), não dispõe de dinheiro para o regresso. Mas é sobretudo o medo que a habita do voltar a encontrar-se com o pai que “dorme todos os dias com a catana debaixo da cama…” Já foi preso por diversas vezes e a sua casa acabou de ser queimada como represália à sua violência tão sofrida no bairro…

Este é apenas um exemplo…

As histórias pessoais destes adolescentes, meninas e rapazes, lançam-nos muitas interpelações: Como ajudar a sarar estas feridas tão profundas? Como encontrar com eles caminhos que os ajudem a acreditar que as suas vidas podem ter futuro?

Isto passa por despertar, fazer renascer a sua auto estima, encontrar as suas famílias e trazê-las para a mesma luta…Infelizmente neste campo sentimo-nos muito sozinhas, porque das experiências que temos tido de conversar com algumas delas, uma grande maioria, não está em condições de proporcionar àquele ou àquela jovem o mínimo de condições por se encontrarem completamente desestabilizadas…

Não sabemos qual vai ser o desfecho destas vidinhas ainda tão curtas em anos e tão marcadas pela privação do direito mais fundamental que assiste a qualquer ser humano: Fazer a experiência de ser amado, ter um lar onde ele/ ela possa sentir-se pessoa. Ter uma identidade!

Mas apesar deste “não saber”, não vamos desistir…Como acabamos de referir continuaremos a lutar por encontrar um caminho personalizado para cada jovem, já que as realidades são diferentes. Propomo-nos:

  • Identificar um familiar, nos casos em que tenha algum por perto, com quem possamos dialogar de modo que se comprometa a aceitar este adolescente, acreditando na sua recuperação (vários deles têm experiência de roubo, álcool, droga…até algum, já passou por alguma Esquadra da polícia…)
  • Nos casos em que a própria família (irmão, tio, avó…) se encontre numa situação que não permita a recuperação do jovem, dialogar com a família que o recebeu ou outro casal da comunidade cristã, que aceite este/esta jovem para trabalhar e viver em sua casa, continuando nós a acompanhar o seu processo.
  • Incentivá-lo cada vez mais através de dinâmicas que lhe façam aumentar a auto-estima, como seja, por exemplo, o ajudá-lo a fazer o seu B.I. (é um desejo que albergam todos) e naqueles/naquelas que tiverem um melhor aproveitamento escolar, proporcionar-lhes um curso prático (corte e costura, cabeleireiro, culinária, ou outro).
  • Quando for identificado algum familiar na província tentaremos entrar em contacto para que a jovem possa viajar com a certeza de que será acolhida.

Alimentamo-nos daquilo que foi a experiência das nossas origens: “Só fazemos o bem às pessoas na medida em que as amamos”. E nós queremos muito a estes jovens que o Senhor colocou no nosso caminho! Não desistiremos de os envolver na busca do seu futuro e da sua felicidade…Queremos com eles fazer a descoberta de que têm direito a viver com a dignidade de “filhos e filhas de Deus”…
Acreditamos que “O AMOR É INVENTIVO”!

Muito obrigada.

Maria Inocência Costa
Mahotas. Comunidade de S. Domingos

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