No dia 22 de julho de 2018 embarquei na maior aventura da minha vida, decidi arriscar tudo por um sonho que mais ninguém via, somente eu, e voei sozinha até Moçambique, o país onde o sol nasce com uma intensidade inigualável, onde as mulheres vestem capulanas coloridas e as crianças esboçam sorrisos contagiantes.

Quando manifestei esta minha vontade em partilhar o meu tempo com outras pessoas e comunidades, houve que me perguntasse qual era o motivo e porque é que escolhi um destino tão longe da europa ocidental. A resposta mais sucinta que me ocorria era sempre a mesma: É necessária uma razão para ajudar os que mais precisam? No entanto, tentava demonstrar aquele meu fascínio desenvolvido pelo continente africano ao longo dos anos, em parte fomentado através do contacto com pessoas que por lá tinham vivido e que manifestavam uma mentalidade tão diferente, um espirito tão aberto, uma felicidade interior! Afirmava que a minha missão junto daquele povo de olhos brilhantes, seria sobretudo a transmissão de alguns conhecimentos na área da saúde, nomeadamente sobre o VIH/SIDA no qual tinha alguma formação, na tentativa de capacitar os jovens, evitando comportamentos de risco, o preconceito inerente à falta de conhecimento, incentivando-os a lutar por um futuro melhor.

Mas na verdade o que eu ambicionava era uma aprendizagem constante, um crescer em humanidade! Mais do que usufruir do lazer da experiência e transmitir os meus conhecimentos, queria sobretudo sentir a vida daquele país, conhecer-lhe a essência, a cultura, a educação, as mentalidades e personalidades daquelas pessoas.

Tudo isto só foi possível graças à oportunidade que a Congregação das Irmãs Dominicanas do Rosário me deu. Ao longo de dois meses integrei-me e misturei-me absolutamente com as pessoas e o seu quotidiano. Visitei famílias onde a pobreza abundava, demonstrando-me a importância de agradecer todos os dias a Deus, pelas refeições que me dava; dei aulas a turmas com mais de 40 alunos, que percorriam quilómetros, muitas vezes sem nada no estomago apenas motivados pela vontade de aprender, adquirir senso crítico e lutar pelos seus direitos, demonstrando-me a sorte que tivera toda a vida por ter um acesso facilitado à educação e o quão ingrata fora, por considerar esta como algo adquirido.

Ajudei crianças com surtos de tinha, uma infeção fúngica, que aqui em Portugal está erradicada, mas que em África devido às más condições de higiene e dificuldades de acesso a medicação, traduz-se numa pandemia e compreendi, através dos gestos de gratidão demonstrados pelas suas mães, que dedicar o meu tempo, ser amiga, doar e fazer o melhor que conseguia com poucos recursos que tinha, poderia mudar certos cenários trágicos.

Recordo-me sempre das palavras da ir. Mafalda antes de embarcar nesta missão, que me disse que o mais importante seria ir de coração aberto para receber o outro e que não deveria tentar impor aquilo que sabia como algo absoluto, que no fim acabaria com a sensação de que aprendi muito mais do aquilo que ensinei. E foi mesmo isso que aconteceu, abri as fronteiras do meu coração e abracei-os a todos! 

Hoje, refletindo se fiz realmente a diferença junto daquele povo e alcancei os objetivos a que me propus, penso que na verdade não salvei o mundo, não resolvi os problemas sociais de Moçambique, mas tive a oportunidade de educar, partilhar conhecimentos e expandir os horizontes daqueles que cruzaram o meu caminho. E saber que contribui para as suas vidas, que lhes deixei um pouco de mim e que lhes transmiti algum do meu saber através da minha motivação, alegria e atividades, permite-me concluir que nós os voluntários, podemos não salvar o mundo, mas se cada um de nós educar e motivar uma criança ou adulto, são eles que o vão fazer. Que é tão fácil ser solidário, basta querer e acreditar que uma pequena ajuda é melhor que muita pena e que quando somos bons para os outros, somos sem dúvida, muito melhores para nós!

 

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